Por Ivens Andrade l Foto: Mateus Monteiro l Modelo: Félix Felzke

A face do criador nem sempre é espelho de suas criaturas. De fala e gesticulação contida, Lindebergue Fernandes, cujas raízes são de Várzea da Conceição, na aridez do sertão central cearense, é a personificação do que entendemos por surpresa.

Félix Felzke e Lindebergue Fernandes

Por baixo de sua inabalável tranquilidade, Lili, apelido-nome do designer querido de forma unânime, parece guardar um oceano revolto em dia de tempestade. Em sua mente, sinapses percorrem distâncias longas em referências que alcançam, ao mesmo tempo, o minimalismo-desejo e a extravagância que flerta com o kitsch.

Lindebergue constrói seu caminho, na vida e na arte, sendo estilista-poeta de temas que inquietam, assombram, que geram dúvida e, acima de tudo, emocionam. Foi assim em 2015, quando seu desfile foi uma homenagem ao estilista falecido João Sobarr; em 2013, quando mandou a mensagem “Sua ignorância não nos representa”, antevendo a ascensão da onda ultraconservadora; em 2006, quando transformou a passarela em procissão religiosa de ex-votos…

O termo “autoral”, no caso de Lili, não evoca nada de distante. Suas peças-obras acompanham esse estranhamento e possuem uma aparente incompatibilidade entre o que é moda passageira e o que é atemporal. Vistas com atenção, suas roupas são, ao mesmo tempo, um espelho distorcido do zeigeist planetário e o reflexo de seus sentimentos mais íntimos.

Félix Felzke e Lindebergue Fernandes

Talvez por isso seja comum para ele nos levar pelas veredas da memória afetiva. Em 2017, completando 15 anos de DFB no posto de hot ticket absoluto, Lili aciona as lembranças do tempo em que foi coroinha e pertencia ao grupo de jovens da igreja que frequentava. Devoto fervoroso de Nossa Senhora de Fátima, Lindebergue apresentará uma coleção que celebra, mais uma vez, a devoção, a fé e a esperança.

Num encontro rápido e delicioso nos preparativos do DFB Festival 2017, houve tempo para um cafezinho imaginário tomado com dois dedos de prosa com Lili:

DFB: Esta é a sua 15ª edição de DFB, um evento que, muitas vezes, você usou como palco pra verdadeiras performances. O que te faz manter a fome criativa necessária pra apresentar coleções com tanta alma?

Lindebergue Fernandes: O amor pela moda, pelo evento…por todos envolvidos no desfile e pelas pessoas que esperam todo ano pra verem o que vou apresentar na passarela.

Félix Felzke

DFB: Qual a importância de um evento como o DFB nestes tempos cada vez mais acelerados?

Lindebergue Fernandes: É um evento literalmente libertador; um respiro para os que criam com emoção e se realizam com trabalho autoral.

DFB: Uma dica para os novos criadores, almejam sucesso comercial e conceitual?

Lindebergue Fernandes: Essa nossa carreira não é fácil, nem cheia de “plumas e paetês”, como muitos imaginam. Você tem que estar preparado para o que vier, pois é uma área que exige demais do criador em diversos aspectos. Às vezes, ser conceitual é praticar exatamente o oposto do seu lado comercial. E é isso que motiva a gente. Aqui, é possível sonhar.