POR: ADELITA MONTEIRO • ESPECIAL PARA O DFHOUSE
A artesã e designer Adelita Monteiro, responsável pelas bijoux orgânicas do desfile de Lindebergue Fernandes e proprietária de uma loja de artesanias na Emcetur, conta suas impressões sobre o manifesto-fashion do amigo no DFB2016.

Comunista desde os quinze anos, quando comecei a trabalhar com moda ninguém entendia, nem na moda, muito menos na política.
Pacientemente eu explicava (quase sempre em vão).
Moda é futilidade? Pode ser que sim, pode ser que não.
Política é corrupção? Pode ser que sim, pode ser que não.
O grande lance é escolher o lado certo.
Ontem um dos mais talentosos estilistas do Brasil, Lindebergue Fernandes, surpreendeu, encantou, emocionou, POLITIZOU. Minha parceria com ele é tão longa! Nem lembro a primeira vez que desenvolvi acessórios para um desfile do Lili (como todos o chamam).     Poder enfeitar o espetáculo de talento criado por Lindebergue Fernandes tem sido um privilégio irrigado com admiração, trabalho e uma amizade daquela de verdade, sabe?
Este ano terminei os acessórios do desfile aos 45 do segundo tempo.
Entre sementes, crochê, pedrarias e cascas entreguei os colares e maxi-broches que seriam detalhes nas roupas fabulosas criadas por Lili.
Pouco antes do desfile precisava ir embora. Lindebergue me olhou e disse: Não vá. Você tem que ficar. Sei Barros, estilista incrível responsável por bordados, pinturas e texturas artesanais de cair o queixo, fez coro com Lili pedindo para que fôssemos juntas só depois do desfile. Acabei ficando.
Foi quando Charles W., gênio por trás da direção criativa do Lili orquestrando a equipe e criando as inesquecíveis trilas sonoras dos desfiles veio a mim e falou: “Esse ano não quero você aqui no camarim. Vá para a platéia. Assista de lá. Fiz a trilha pensando em você.”
Na sala do desfile uma música nacionalista, da época da ditadura, invade o ambiente compondo o cenário onde surge um modelo, cara pintada de palhaço, bandeira de luto, empunhada. E assim segue um desfile de palhaços, com palavras chave piscando no LED da passarela: ”Ordem é progresso?”, com Tom Zé perguntando aos cidadãos de quantos quilos de medo precisamos pra fazer uma tradição. Com uma referência à fé cristã que liberta ao convocar um Cristo revolucionário, transformador. E os looks maravilhosos foram manifestos políticos encharcados de força e beleza. Me invadiu a emoção de fazer parte disso. Sim, eu chorei. Sim, me arrepiei do início ao fim. Não, não fui a única.
O desfile foi fechado por um modelo ostentando uma alva bandeira: Resiste a esperança!
E Lili, aplaudido de pé, ao som de Raul Seixas nos libertando pra tomar banho de chapéu, surge emoldurado por lindos casais. LACROU!
Em tantos anos de parceria eu já havia me emocionado antes e me empolgado sempre. Porém, ontem este desfile inundou meus sonhos. São tantas as tristezas e preocupações e dificuldades… Mas hoje estou feliz. Mesmo. Muito!
Por uma moda com essência e ousadia e inteligência.
Por uma política feita para o certo e o bom e o justo.
Por uma fé de amor e respeito e bondade.
Empunhemos nossas bandeiras!

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