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Coração de Dragão

Por Ivens Andrade l Foto: Thais Mesquita

Poucos aquarianos conseguem unir sua inquietude e inovação com trabalho focado em realizar o que sonham. Cláudio Silveira é um desses.

Precoce em quase todas as suas empreitadas, seu senso estético e paixão pela arte sempre foram guias de sua personalidade forte e inspiradora, responsável por trazer à vida o maior encontro de moda autoral da América Latina.

A história que narra os primeiros voos do DFB pode ser incrível, digna de um livro, mas o que está a nossa frente, no futuro do evento, é ainda mais interessante e motivador. O “nosso”, pronome da coletividade, tem raiz no ímpeto que Cláudio tem em trazer ao Ceará – e ao Nordeste como um todo – a grandeza digna do potencial desse povo.

Nesse sentido, o idealizador do Dragão Fashion Brasil, que esse ano torna-se DFB Festival, conta com algo que vai muito além de uma mão de obra específica e impecável, ele conta com a essência de pessoas apaixonadas pela moda e pelo que representa hoje a marca DFB.

Muito além de um empresário com visão vanguardista, Cláudio Silveira também é família. Com irmão, filhos e esposa como membros imprescindíveis para o sucesso do DFB, o clã é elogiado e reconhecido por uma sintonia fina que traz harmonia ao evento.

Numa tarde super animada e descontraída, entrevistamos Cláudio Silveira em seu QG da Equipe de Produção. Ansiosos para as repostas? Acompanhem!

Cláudio, como você se sente com o caminho que o DFB trilhou até aqui?

Tenho um grande orgulho do cenário que ajudamos a erguer no nosso Ceará e na moda autoral brasileira como um todo. Em pleno momento de recessão, é uma grande façanha conseguir realizar um evento internacional do tamanho do DFB, com um orçamento que é uma fração do que é utilizado por outros eventos brasileiros, e, ainda por cima, garantindo o respeito e o reconhecimento para a nossa moda autoral e para a cultura do nosso estado como um todo. Esse orgulho, aliás, eu divido com todos aqueles que acreditam no DFB.

O Dragão Fashion está se tornando Dragão Festival, conta um pouquinho sobre essa modificação, e o que ela significa.

Foi uma evolução natural. Da mesma forma que a moda deixou de ser restrita ao vestuário, o DFB acompanhou a mudança de perfil do próprio segmento para assumir uma vocação que já vinha, desde o início sendo aplicada na prática. Se olharmos para trás, lembraremos que o DFB nunca foi somente moda. A cultura sempre marcou presença, seja nas performances, seja nos shows, na reunião de grandes chefs, na programação de palestras e workshops de formação. A moda agora divide o protagonismo com esses setores que, na verdade, convergem para um objetivo em comum: mostrar o quanto somos danados, talentosos e bravos! Já éramos um grande festival multidisciplinar. Só faltava assinar como tal.

O que mais te trouxe mais orgulho nesses 18 anos de DFB?

Motivos de orgulho, tenho muitos, mas acredito que o maior é ser testemunha de como o trade se organizou nas duas últimas décadas, graças, em parte à atuação do DFB. Não tenho modéstia alguma ao reconhecer a importância do nosso evento. E digo nosso porque ele só acontece porque tenho grandes parceiros que compartilham da minha luta por uma indústria da moda sólida, profissionalizada e relevante.

O que renova as suas energias pra continuar realizando o evento, agora Festival, todos os anos?

Minha família, minha casa, voar até Londres com minha esposa Helena, um bom vinho… Sou da simplicidade. Quem me vê correndo a mil durante o DFB e os eventos que realizamos durante o ano, nem imagina mas eu tenho grandes e longos momentos de contemplação e silêncio. E é nesses momentos que eu reponho as baterias.

Qual a importância do DFB hoje para a máquina da moda? 

Nossa principal função talvez seja oxigenar o mercado. Tente contar, nesses 18 anos, quantos novos talentos foram apresentados ao mercado. De 1999 até agora, nada menos que 194 nomes, entre estilistas e marcas autorais, mostraram seu talento na passarela do DFB. E isso sem contar o Concurso dos Novos que, todo ano, reúne alunos de todo o país. Por tudo isso, nós somos o elemento provocador do trade da moda. É no DFB que a gente discute, desfila, rompe com conceitos, antecipa movimentos. De modelos transexuais a desfiles com forte viés político; de coleções que flertam com a arte, até mesmo marcas supercomerciais. Todas democraticamente juntas e misturadas no DFB.

Com as redes sociais tão latentes, qual a importância dos desfiles, que são grandes investimentos, para a marcas?

Desfiles são shows. A própria definição em inglês é essa. Shows. Eles envolvem muito mais do que centenas de pessoas em uma sala escura vendo um look atrás do outro. E sábias são as marcas que já descobriram que, apesar da conveniência dos e-commerces, da praticidade do streaming, do imediatismo das redes sociais, nada disso é comparável à experiência de assistir um desfile ali. Enquanto a moda luta pra não virar commodity, o desfile continua sendo um momento de catarse onde é possível mergulhar, ainda que por 8, 9 minutos, em um universo desconhecido e, na maioria das vezes, apaixonante.

A moda cearense já tem identidade?

Identidade, em termos de moda, é algo que se adquire com tempo. E ainda somos muito jovens. A moda brasileira tem o quê? 40 anos no máximo? Veja as grandes marcas brasileiras com identidade. Ou viraram outra coisa ou evoluíram para outros caminhos. Porque identidade, ao contrário de DNA, é algo em constante evolução. Nós mesmos somos um pouco diferentes ao final de cada dia. Nosso DNA, não. Esse é perene. E o DNA cearense, que já foi tema de um DFB, anos atrás, tem a ver com a força da ancestralidade, do artesanal, da técnica passada de mãe para filha. Nossa identidade? Hoje é usar a moda como expressão de uma busca pela felicidade, pelo bem estar. Nosso DNA? É a nobreza da nossa história. E é do que lembraremos no futuro, pode acreditar.

Como você vê o cenário da moda atualmente? 

São múltiplos os caminhos para a indústria. A internet, sem dúvida alguma, vai nortear, cada vez mais, as ações do mercado. Comunicação é o grande valor agregado. O consumo imediato tem comandado as demandas, mas já verificamos um retorno ao essencial, ao slow, ao feito à mão. O próprio DFB é a prova de que há espaço para esse desejo de uma moda mais autêntica, sem a histeria do fast fashion. E, de todos os caminhos, talvez o mais árduo continue sendo o de garantir condições para que o trade consiga se desenvolver e acompanhar as mudanças do nosso próprio temo. Nesse sentido, o Brasil ainda é campeão negativo na tributação, nos impostos, na desvalorização dos profissionais… Enquanto esse cenário perdurar, nós continuaremos comendo poeira em relação ao resto do mundo. Ainda bem que temos as vozes autorais!

E o futuro? Que cara tem o futuro que você imagina para o DFB? 

O futuro é um lugar ao qual não pertencemos! O que o DFB me ensina? Que o foco deve ser o hoje, o agora, sempre carregando na alma a nossa história, a tradição, a vocação daqueles jangadeiros, que embarcavam em busca de novas águas. O Chico da Matilde, cujo apelido deu origem ao nosso nome – o Dragão do Mar – era isso: um desbravador de novos horizontes. E eu duvido que ele estivesse preocupado com o futuro. Muita gente acha que a moda autoral é uma plataforma para visionários. Eu, humildemente, acredito que a verdadeira moda autoral é uma poderosa forma de expressar a nossa atualidade. Pra mim, e acho que também para os velhos jangadeiros desses nossos verdes mares, o futuro é a próxima onda que a nossa jangada irá transpor.